quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Já não tu, Zorba


Ainda no limiar do sono,

naquela ténue linha que nos separa da espertina,

estendo a mão para ti, Zorba…

Quero acordar com o conforto do teu toque,

desse olhar verde e meigo que me lanças daí,

desse cantinho onde te arrumas para estares junto a mim.

Vou acordando e, de facto,

encontro a macieza tépida de um pêlo.

Sou subjugada pelo verde de um olhar.

Sou cativada pelo carinho de uma turrinha…

Olho, já desperta, e estou rodeada de felpudinhos

que aguardam também a minha atenção, o meu carinho.

Mas já não tu, Zorba.

Mas já não aquela cumplicidade, aquele entendimento,

aquela intuição especial, tão nossa Zorba…

E, então, não sei se quero acordar.

"Retalhos Serenos" livro a apresentar

Sábado 6/Fev

(caso não consiga ver a imagem, clique aqui: convite)



"Retalhos Serenos"

Mais um livro de poemas, neste caso de Carla Madureira, que terei o prazer de ajudar a apresentar.

Se querem passar uma tarde de Sábado agradável respirando poesia, música, imagens deliciosas e, tudo isto, num ambiente descontraído e bem disposto, venham até ao Bela Cruz pelas 17 horas.

Verão que não darão por perdido o tempo.

Se eu soubesse


Se eu soubesse

Se eu tivesse ainda que apenas um laivo de suspeita

que, chorando, dissolveria este nó.

Se eu soubesse,

ainda que apenas pressentisse

que, se chorasse, sentiria outra vez o sentir

Se eu soubesse,

ainda que fugazmente adivinhasse

que as lágrimas arrastariam tudo o que não sou

deixando-me só …


Então… chorava.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

“O mar em Casablanca” de Francisco José Viegas


Terminei hoje a leitura do livro de Francisco José Viegas “O mar em Casablanca”.

Como já tinha acontecido com os outros, gostei.

Sempre fiel ao inspector Jaime Ramos da polícia Judiciária do Porto (o verdadeiro anti-herói), vai desenvolvendo a sua trama de cadência suave, quase indolente em aparência, até que, assim mesmo, sem darmos bem por isso, já estamos irremediavelmente enredados.

Com o inspector e os seus ajudantes, percorremos as terras do Vidago, de Chaves e do Douro. Deambulamos pelo Porto, pelos seus locais mais escondidos, mais genuínos e, por isso, mais nossos, ao mesmo tempo que, através das lembranças e até de sonhos, vamos fazendo um périplo pela vida do inspector .

A sua presença em África, a sua vida passada, a sua vivência política e o que daí adveio. A sua actual doença, a sua solidão, a idade… Curiosamente, as recordações biográficas e os dados que vão apurando do caso que têm em mãos vão-se tocando até criarem momentos de forte entrosamento em que já é um exercício destrinçar o que pertence à vida de um e o que é fruto da investigação.

Muito bem escrito, o que não constituiu novidade, este livro vai-nos levando, de forma mansa, por mundos de corrupção, de clandestinidade, de viagens, tudo distribuído no tempo e por vários espaços, culminando com o encontrar de um cadáver no Palace, em Vidago.

A ler.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Ainda sobre a "Dagon"


Esta é a contra-capa da revista, com desenho também da responsabilidade de Miguel Ministro, e que constituirá o símbolo de uma colecção dedicada ao fantástico que a Editora pensa publicar sob o nome YGGDRASIL (pelo menos julgo que foi o que foi dito na apresentação mas eu, por vezes, distraio-me um bocadinho...).
Seja como for, como é bonita, merece ser mostrada!

Li-a ontem. A revista, claro.

E, devo confessar, que aquilo que li ultrapassou bastante as minhas expectativas mesmo depois de ter ouvido a intervenção dos autores aquando da apresentação. Uns, naturalmente, deixaram-me mais curiosa do que outros. A verdade, porém, é que todos me surpreenderam.

Havia já bastante tempo que, por norma, não era consumidora de literatura de ficção científica e, mesmo da literatura fantástica, tão na moda actualmente, só tenho lido autores “clássicos” em relação aos quais sei (ou julgo saber) com o que posso contar. As incursões por autores mais actuais ( e refiro-me sempre a literatura traduzida), revelaram-se uma grande seca. Perdoem-me a vulgaridade do vocábulo mas é, sem dúvida, o que melhor ilustra o valor do que li; fraquinho, fraquinho, fraquinho….

Julguei eu que tal afastamento se devia um pouco à idade que, à medida que aumenta, vai-nos alterando os gostos e as disposições para.

Mas afinal, se calhar, não! Não é uma questão de idade. É, sim, uma questão de qualidade!

Pois, para espanto meu, fiquei presa aos contos, pequenos é certo, que a revista traz. E até para ser inteiramente franca, o que menos apreciei (talvez porque não tenha sabido fazê-lo e precise de o reler) foi o de Nir Yaniv, escritor/editor/músico israelita que aparece com provas dadas.

Por isso, a partir de agora vou andar muito mais atenta em relação ao que se produz neste campo no nosso país pois o pouco que li foi francamente encorajador.

Já agora, apenas um reparo.

Fiquei deveras zangada não sei bem com quem (mas para já leva o editor que o fez e o autor que o permitiu) com o facto de o conto “Um dia com Júlia na necrosfera” estar truncado. Apenas se encontra transcrita uma parte. E agora, Sr. João Barreiros, o que é suposto fazer, com este nervosismo e esta ansiedade pela continuação, até à próxima revista? Ah? Não me dizem?

Até a minha mais recente aquisição felina, o Black, do qual não tinha nenhuma indicação que fosse apreciador deste ou de qualquer outro género literário (ao contrário dos gatos que vivem comigo que são bons apreciadores de poesia, sobretudo se declamada), ficou em tal estado de excitação que se agarrou à revista e há que mastigá-la em atitude de protesto.

Compreendo a sua atitude! Até a mim me apeteceu fazer algo no género.

Mesmo assim levou uma valente corrida pois livro, aqui em casa (com a excepção do da Carolina e de alguns outros parecidos), é coisa quase sagrada. E por muito arreliados que estejamos não podemos nunca, mas nunca mesmo, tentar sublimar as nossas frustrações mastigando livros ou revistas sobretudo QUANDO AUTOGRAFADOS PELOS RESPECTIVOS AUTORES!!!!

Entendido Black????

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

“A Consciência de Zeno” de Italo Svevo Biblioteca António Lobo Antunes


Terminei hoje a leitura do livro “A Consciência de Zeno” de Italo Svevo livro que comprei por fazer parte da Biblioteca de António Lobo Antunes. É o último desta colecção que tem vindo a ser publicada pela D. Quixote.

Ora como não conhecia nada do autor e tinha sido o último a ser publicado, foi com ele que decidi satisfazer a minha curiosidade quanto às recomendações literárias, no fundo, os gostos pessoais, de A. L. A.

Pois a verdade é que, de início, me surpreendeu visto ser um livro de aparência mansa quer no tipo de escrita quer no seu enredo que em nada se parece aos que A.L.A. produz. Contudo, depressa verifiquei tratar-se de algo bem mais profundo do que aquilo que se apreende às primeiras impressões.

Basicamente o livro consiste nas confissões de um negociante, rico, já de idade que, a pretexto de querer entender a enorme dificuldade que constituía para si deixar de fumar e, por isso, se considerar dono de uma série de doenças, se sujeita à psicanálise.

O texto, daí resultante, vai-nos contando com toda a honestidade, candura e humor alguns momentos determinantes da sua vida.

Interessante é quando começamos a entender a diferença entre o Zeno das confissões e o Zeno da vida real!

Porém, mesmo sendo na realidade um homem fútil, fraco, sujeito a todas as faltas de honestidade que a vida lhe proporciona , quando as analisa, fá-lo sempre com a maior das bonomias e são sempre justificadas com a singeleza dos seus sentimentos e daquilo que pensa delas… É um bom homem. Pelo menos um homem normal como acaba por concluir já muito depois de renegar a psicanálise e o psicanalista.

Excerto:

“…É claro, não sou ingénuo, e desculpo o médico de ver na própria existência uma manifestação de doença. A vida assemelha-se um pouco a uma enfermidade: também procede por crises e por depressões. A diferença entre a vida e as outras doenças é que a vida é sempre mortal…”

Não me vou alongar mais. Apenas quero referir que Italo Svevo pseudónimo de Aron Hector Schmitz (1861-1928) foi um escritor italiano de origem judaica que viveu o advento da psicanálise, ciência criada por Freud o qual o próprio Svevo traduziu. Contudo, quer-me parecer que não era grande fã destas práticas dado o cariz satírico com que ele aborda esta ciência.

Gostei e recomendo

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Dagon

Ontem, no Clube Literário do Porto (mais uma vez em força), assisti à apresentação da revista “Dagon”

Trata-se de uma revista inteiramente dedicada ao fantástico nas suas várias vertentes. Composta por contos, entrevistas, artigos de opinião, crítica, imagem… bem, todo um mundo de fantasia que se estende à nossa frente.

Uma revista que se descreve a si própria como: “Sou… uma profusão de ideias e ideais, uma verdadeira explosão de arte fantástica!” e que pede ainda “Deixa-me entrar em ti, fundir-me contigo, até as minhas palavras se misturarem com as tuas ideias, lê-me, escreve-me, reinventa-me…”

E querem um conselho?

Façam-no!

Mas façam-no rápido pois a edição é propositadamente pequena e está a esgotar…

A apresentação propriamente dita foi antecedida por duas mesas redondas destinadas a debater a literatura fantástica e de ficção científica.

No primeiro painel constavam autores da chamada “literatura fantástica” propriamente dita, num concito mais restrito, que participaram, com os seus trabalhos, também na revista.

Foram abordados, entre outros, assuntos como a profissionalização do escritor, os nichos possíveis de mercado para este género literário, lusófono, os constrangimentos que surgem nesse sentido… Enfim, algo comum a outros géneros de escrita, julgo eu, mas de grande interesse. O público, que enchia a sala, foi de tal modo participativo que foi necessário haver moderação de tempos…

O segundo painel era dedicado à ficção científica (quanto a mim, também no âmbito do fantástico, mas que, como vim a perceber, contém subjacente um conceito bem diferente) e composto por dois dos mais importantes autores portugueses nesta área.

Se não refiro o nome de nenhum é apenas para espicaçar a curiosidade dos que aqui vierem. Busquem! Informem-se!

Foi muito interessante também e, um dos aspectos que o dominou, foi exactamente procurar fazer a destrinça entre a literatura fantástica e a ficção científica na qual os conceitos básicos da ciência não podem ser ignorados.

Para terminar apenas vos digo que foi uma tarde francamente profícua em aprendizagens, para mim, claro, que andava um tanto alheada em relação ao que se fazia em Portugal nestas áreas.

Mais uma vez tenho de cumprimentar a Edita-me pela coragem de ter dado corpo a um projecto que Roberto Mendes há muito sonhava ver concretizado.

Sempre coerente com o seu quase slogan de “fazer acontecer”!

Por fim, um reparo muito especial e com muito carinho, confesso, para as imagens de Miguel Ministro que só já não me surpreendem inteiramente pois, dele, já só espero o excelente.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Ó p’ra nós nos “média”!!!!

Até que enfim é dado o realce merecido a um clube e a uma editora que há já uns tempos têm vindo a desenvolver encontros entre autores e público.

Trata-se do Clube Literário do Porto que em parceria com a Edita-me desenvolvem no primeiro domingo de cada mês o “Clube de Leitores” que é uma espécie de encontro informal entre autores emergentes (muito importante este aspecto) e o público que se interessa por ler.

Realço os autores emergentes pela coragem demonstrada pela editora em trazer à ribalta autores que, de outro modo, teriam sérias dificuldades (seria mesmo impossível para a maioria) em penetrar nos circuitos editoriais.

É que editar quem já sabemos que vai vender, bom, não tem nada de mais, é a prática corrente, é sempre um risco seguro, passe a antítese. Os outros, os que ainda não tiveram oportunidade de mostrar o que valem, esses sim, constituem uma aposta à altura apenas de alguns.

O Carlos Lopes da Edita-me é, sem dúvida alguma, um desses ALGUNS!

As sessões são, como já disse, informais, divertidas e contam normalmente com a participação excelente de Pedro Lopes ao piano, ou não se realizassem elas no Piano-bar…

Têm, na minha opinião, vindo a crescer quer em qualidade, quer em número de pessoas que mobiliza.

O Clube Literário do Porto tem-se apresentado nestes últimos tempos com uma nova dinâmica que o põe na frente de muito do que se passa em termos culturais e não apenas no âmbito da literatura, na nossa cidade.

Ambos de parabéns e com merecido realce na Visão de 21 de Janeiro de 2010 de onde colhi as imagens que ilustram este texto.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

"Vacilantes rostos do passado" Crónica de hoje de António Lobo Antunes


Geralmente gosto bastante das crónicas de A.L.A. É quase ponto assente.

Contudo, ao ler a que saiu na Visão, hoje, mais do que gostar senti um arrepio.

Pela sua beleza, pela forma como fala dos “vacilantes rostos do passado” com aquela franqueza despudorada que o caracteriza,mas também pelo carinho que deixa transparecer. Pela confissão que faz acerca da forma como encara e analisa um livro, como o desmonta, interessantíssima. Pela antevisão de como será recordado quando ele, também, um rosto do passado…

Comovi-me, confesso, com esta leitura.

Como todas as outras, não percam também esta. É um pedacinho de ouro que temos oportunidade de manusear…

Ler aqui

Armadilhada!


Esclarecimento que se impõe. Este corpo que se vê na imagem não é o meu, vê-se pelo descuido no que respeita à depilação.... apenas o aparato é semelhante e é aquela coisa do braço que incha! É lindo de ver!!!!!

Meus amigos, encontro-me armadilhada. Tenho uma cinta no braço, uns fios colados entre o peito e as costas e um aparelho à cintura que apita a intervalos regulares. E é nessa altura que o meu braço começa a inchar drasticamente por sob a camisa e a produzir ruídos estranhos até que, num sopro lento, volta a diminuir o volume, terminando por fim os zumbidos.

É também nessa mesma altura que, embora dissimuladamente, pois finjo (e tento, a sério, tento mesmo) que não tiro os olhos do livro que mantenho aberto em frente a mim, muito bom por sinal, “A consciência de Zeno” de Italo Svevo, que observo os vizinhos de viagem (venho de Metro), sobretudo o que se senta a meu lado.

É de ir às lágrimas e, só com muita dificuldade e a ajuda do tal livro consigo não me desmanchar. É que o senhor fixa os olhos no braço os quais se vão arregalando ao mesmo tempo e na mesma medida que se vai produzindo o já referido inchaço. Julgo que, num acto reflexo, chega-se mais para junto da janela ou seja, distancia-se o mais possível de mim. Calculo que por momentos lhe passa pela cabeça que eu irei explodir. Sei lá… um qualquer elemento da Al Qaeda, em loiro, agindo contra o imperialismo norte-americano em pleno Metro do Porto. Porque não? Assim, tudo faz para aumentar a distância que nos separa o que consegue aí cerca de 6 a 7 cm.

Convenhamos que não é lá muito para quem, na minha imaginação, se julga em tão grande risco. Na certeza, porém, que foi o suficiente para me proporcionar uma posição mais cómoda…

A verdade é uma só. Embora visivelmente desconfortável, não perdeu a pose e não deixou o seu lugar até à estação onde, presumo eu, deveria sair. A qual, por acaso, apenas por acaso, foi logo a primeira onde parámos após o extraordinário fenómeno por ele observado.

Já da porta, ainda me lançou uns olhares desconfiados mas não teve qualquer outra atitude que me pusesse em risco.

Devo ter-lhe parecido pessoa de confiança embora…armadilhada, pronto!

Manhã insólita


Uma vez que, ultimamente, só aqui tenho colocado textos bastante tristes, escritos em momentos de grande fragilidade emocional seja por uma razão ou por outra, achei por bem contar-vos um episódio que revela apenas uma pontinha dos momentos fantásticos que estão reservados aos donos (ou súbditos, como queiram) de animais.
São momentos como este (e são tantos) que nos fazem suportar melhor um momento de perda e conseguir encarar a recordação com um sorriso nos lábios.

(Maicat's Carlota Joaquina de Sua Graça)

Foi numa manhã em que, como em muita outras me encontrava sozinha em casa e, com grande esforço e pouca vontade, tentava dedicar-me a detestadas tarefas domésticas, que algo insólito me aconteceu.

Claro está que dizer que me encontrava sozinha é, sem margem para dúvida, um eufemismo da minha parte quando, até para as mais básicas necessidades fisiológicas, sou acompanhada e supervisionada por alguns pares de olhos atentos não vá a coisa correr mal (o que aliás não seria caso inédito!)….

Obviamente que, dizer que me aconteceu algo de insólito, não é também nada de novo dado que sou a rainha das situações estranhas, raras, esquisitas, insólitas, chamem-lhe o que quiserem, mas julgo não acontecerem à grande maioria das pessoas.

Pois bem, estava eu, como já disse a arrumar a sala quando me pareceu ouvir vozes vindas de cima, não do além, desiludam-se, não, era mesmo do andar de cima.

Um tanto intrigada, subo as escadas e paro no hall dos quartos para ver se entendia de onde provinha o som que se tornava mais nítido à medida que ia subindo.

Percebi então que vinha do andar ainda mais acima (mesmo assim ainda não do além), onde tenho um grande escritório e guardo a maioria dos meus livros.

Subo novo lance de escadas e deparo-me com o televisor ligado. Estranhei, de facto, pois tinha andado ali por baixo a arrumar os quartos e não tinha ouvido nada até àquela ocasião. Bem, como contra factos não há argumentos, peguei no comando, desliguei a televisão e mimoseei os meus filhos, lá onde estivessem, com epítetos não muito abonatórios em função do seu descuido. Ponderei até a hipótese de serem accionistas maioritários da EDP sem que eu o soubesse.

Regressei ao que estava a fazer, já completamente alheada do sucedido. Depois de mais algumas tarefas concluídas e outras aldrabadas, pareceu-me que ouvia novamente barulho de vozes ou algo semelhante.

Aí, já sem delongas mas com maior estranheza, fui rápida e directamente ao escritório onde me confrontei com algo inacreditável; o televisor estava novamente ligado debitando um programa muito fraquinho que dava durante a manhã em que a estridência das vozes me parecia ser o factor mais destacável.

Parei, de comando na mão, começando mesmo a duvidar das minhas faculdades mentais. Então eu não tinha ido, talvez há 20, 30 minutos, desligar o televisor? Seria que o tinha desligado mesmo? O comando estaria a funcionar?

Da forma mais pragmática possível perante a situação há que testar o comando várias vezes, ligando e desligando o televisor, constatando que funcionava na perfeição. Pronto, pensei, julguei que desliguei mas distraí-me.

Regressei para baixo não sem antes verificar que, efectivamente, desta vez, ficava desligado.

Contudo algo me ficou a azucrinar o juízo pois eu tinha quase, quase a certeza de o haver desligado da primeira vez. Assim, fui-me mantendo ali pelos quartos a inventar coisas para não fazer, nem sei muito bem à espera de quê, diga-se.

Como nada aconteceu e já estava farta de andar a fazer que fazia, lá fui, desta feita à lavandaria que é no fundo do quintal, levar uma roupa para meter na máquina.

Logo que regressei não tive dúvidas. A televisão estava ligada e no auge da sua estridência!

Aí, confesso que comecei a não achar piada nenhuma. Mas, ainda deitando mão ao pragmatismo que me é inerente, subo os dois lances de escadas a correr pois, cá para mim, só podia ser alguém (algum dos meus filhos) que estivesse a gozar com a minha cara e, podem crer apanhá-lo-ia.

Chego lá cima esbaforida e, na verdade, além do televisor ligado e com o som em decibéis insuportáveis, das estantes com os livros, dos computadores, dos sofás, da aparelhagem de som, tudo objectos inanimados e que com muita dificuldade poderiam ligar o aparelho em causa, apenas se encontrava a Carlota confortavelmente esticada a dormir no sofá.

Já bastante apoquentada com a minha sanidade mental, desligo a coisa e desço bastante intrigada. Que raio de avaria seria essa que só se manifestava se não estivesse presente? Sim, porque me mantive lá um bom bocado para confirmar que aquilo ficava desligado.

Reconheço que estava deveras preocupada comigo mas, contudo, não inteiramente convencida. Deixei-me ficar algum tempo, em silêncio, no fundinho das escadas que são daquelas em caracol, portanto bem abertas, para ver se percebia o que se passava, se é que era para perceber…

Às tantas, já cansada de estar ali e julgando aperceber-me de um ténue ruído, subo o mais silenciosamente possível e, logo que, ainda a meio das escadas, tenho uma perspectiva do local dos acontecimentos, vejo a cena mais caricata, mais estranha e mais cómica que poderia imaginar:

A Carlota (que gosta pouco de silêncio, é verdade,) caminhava diligentemente para lá e para cá sobre o comando que havia sempre ficado no sofá (local onde habitualmente está) ao mesmo tempo que ia olhando para o televisor esperando o desejado efeito. Eu, de queixo caído até ao umbigo, quedei-me no lugar onde estava prevendo já o que iria acontecer.

E não foram goradas as minhas expectativas. Tanto se passeou sobre o comando, ora para lá, ora para cá que, finalmente, lá conseguiu acertar com as patas no botão ou botões necessários para ligar o tão pretendido barulho tendo, de seguida, voltado a estender-se na posição em que sempre a havia encontrado.

Acabei de subir a escada dizendo em voz autoritária: Carlota! Que raio de coisa te deu agora para fazer que quase me dava uma coisinha má?! Parece impossível!

Ela olhou-me do alto da sua indiferença de felina e também da superioridade, sobranceria até, que o próprio nome lhe confere (Carlota Joaquina) e pouco mais fez do que “arrulhar” mansamente voltando a fechar os olhos como quem diz : deixa-me em paz. Já que hoje não paras, deixa-me cá com a companhia que arranjei.

E a verdade, se querem saber, é que me rendi à sua vontade. Não só a deixei com o programa que havia escolhido como me sentei ao seu lado a ler e a fazer-lhe companhia. Bom pretexto, diga-se, para me eximir dos tão aborrecidos afazeres domésticos.

Afinal a Carlota é que estava certa…


sábado, 16 de Janeiro de 2010

Uma vida em poucas horas


Cheguei a esta casa faz hoje, dia 24 (estamos em 24 de Dezembro de 2009), precisamente dezasseis anos.

Entrei um tanto à socapa e, apesar de compreender a situação não deixei, porém, de me aborrecer um tanto com o facto de me manterem, nessa noite, afastado de tudo e de todos. É que não era nada aquilo a que estava habituado.
Havia percebido perfeitamente que estava destinado a surpreender uma pessoa, aquela que viria a ser a minha grande amiga e que vocês todos conhecem pelo nome de Donagata.
E, em abono da verdade, é certamente uma gata. Eu o digo. Eu que sou um gato a sério.

O meu nome é Zorba. Tenho nome grego embora seja de origem norueguesa (apesar de nascido aqui mesmo, em Portugal). A minha mãe e o meu pai é que eram ambos noruegueses e residiam neste país de clima ameno. Pelo menos às vezes.

Vamos lá que não me quero perder muito o que se torna já um tanto difícil.

Hoje, estou aqui, no meu quarto com a minha amiga. Enquanto ela vai batendo com os dedos naquelas coisas escuras que tem na sua frente fazendo aparecer uns arabescos (e eu percebo perfeitamente que está a escrever pois sou gato mas não sou parvo). Observo-a pelo cantinho do meu olho. Está preocupada. Percebo-lhe perfeitamente um ar triste que lhe contrai o rosto e que não lhe é nada habitual.

Eu sei bem porque é. Está inquieta por minha causa.
Já percebi há muito que estou doente. As dores são muitas embora as tente disfarçar. E a minha amiga, aquela que eu adoptei, percebe-as e tenta por todos os meios atenuá-las, torná-las suportáveis.
Administra-me cuidadosamente medicamentos, afaga-me constantemente, limpa-me, conversa imenso comigo para que eu consiga estar bem.
A verdade é que os resultados nem sempre são os desejados mas eu tento dissimular o melhor que posso para atenuar a sua preocupação. Contudo, nem sempre sou capaz. E é nessas alturas que, ao erguer o meu olhar para o seu, sinto que ela sabe que sofro e sofre também.

Temos passado muito tempo juntos nestes últimos dias. Ela a ler ou a escrever e eu a recordar a minha vida.

Como já referi, cheguei aqui a casa há 16 anos e destinava-me a emergir do seu sapatinho na manhã do dia de Natal.
Cá em casa ainda é assim. Mantém-se a tradição de deixar os sapatinhos junto do pinheiro na noite de consoada e, na manhã do dia seguinte, é quem mais corre para abrir os seus presentes, enquanto se vai tomando o pequeno almoço de café e rabanadas (os que gostam, claro).

Nesse ano eu fui a surpresa no seu sapato.
E como ficou incrédula!!! Custou-lhe a entender que era eu, um gato, um Bosques da Noruega, o seu presente.
Mas logo que caiu em si era ver a alegria estampada no seu rosto. E eu, bem, eu só pude retribuir com fortes ron-rons e muitas turrinhas.
O dia foi muito trabalhoso, como todos os dias de Natal na nossa casa, mas a verdade é que não deixou de tirar uns bocadinhos, roubados aos muitos afazeres, para me acariciar, para me fazer sentir bem.


Na verdade todos o fizeram. Senti-me um pequeno reizinho e, é também certo que tentei corresponder distribuindo charme a torto e a direito por todos quantos ali passaram o dia.
Sem falsas modéstias, a que verdadeiramente não sou muito dado, fui um estrondoso sucesso!
Sou afável, bem parecido, actuo sempre com bastante delicadeza e sou fleumático por natureza. Poucas coisas me irritam verdadeiramente. Embora, quando tal acontece, e é necessário muito, o melhor é sair de baixo pois sou tremendamente eficaz nas minhas reacções.

O cão vadio que um dia se atreveu a entrar nos nossos aposentos com intenções duvidosas, pode perfeitamente confirmá-lo. Era vê-lo a correr na minha frente pelo jardim fora depois de umas unhadas nada simpáticas, confesso.

A Donagata continua absorta a escrever… Nem se apercebe que estou a observá-la.
Ou será que sim?
Por vezes estica a mão e acaricia-me as orelhas e diz:
- Então Nó-nó (É um tanto ridículo este diminutivo que ela me arranjou. Mas sabe tão bem ouvi-lo!)?! Queres uma turrinha?
E chega a cara ao meu focinho, outrora belo mas hoje muito deformado pela doença, para fazermos este gesto antigo onde transmitimos mais do que carinho….

Não recordo já como foi a minha vida antes de aqui chegar. Sei que a minha mãe era uma lindíssima gata branca , Campeã da Europa tal como eu vim a ser poucos anos mais tarde, em França. O meu pai era um gatão vermelho, belíssimo segundo a minha amiga, mas que nunca possuiu a correcção necessária, nem a paciência, segundo parece, para andar em concursos. Mas, a verdade, é que não os recordo. Apenas sei o que me contam.

Saudades, não posso dizer que tenha sentido; nem tive tempo, de tal modo fui envolvido em mimos.

Aqui vim encontrar também outros gatos com quem me dava bem. Assim, nem isso estranhei.
Deste modo fui vivendo, rodeado de mimos esbanjados por todos até que, era já eu crescidinho, a minha amiga entendeu que era hora de procurar uma noiva à altura das minhas qualidades.
Aparentemente foi difícil. Não se encontravam assim por aí aos pontapés Bosques da Noruega que servissem. Em boa verdade, para a Donagata, nenhuma donzela estava à altura do seu campeão, eu.
Eu fui-me fazendo desentendido pois estava perfeitamente bem nesta doce vidinha. Mas, na realidade, bem percebi todas as diligências que entretanto iam sendo efectuadas. Ia ouvindo as conversas de olho meio aberto meio fechado mas de orelha bem arrebitada…

Hoje é a minha amiga que está ali, não de orelha arrebitada, claro, mas muito atenta às minhas necessidades… Como tudo muda! Apenas o carinho que me rodeia se mantém…

Um certo dia, não me lembro bem quando, eis que sou apresentado a uma belíssima ruiva que tinha vindo directamente da Oslo e que dava pelo nove de Eillen Av. Oseberg. Claro está que passou logo a ser Lili (esta mania dos diminutivos…) e, embora um pouco mais assustadiça do que eu, era meiga e rapidamente se integrou no seio familiar. Era belíssima, confesso, e rapidamente me deixou completamente rendido.
Reconheço que só nessa altura compreendi que há sempre algo mais que podemos ter a acrescentar à nossa felicidade mesmo quando julgamos que já temos tudo…
Também, mais tarde, entendi que, mais rapidamente ainda, se perde aquilo que julgávamos completamente certo…

Mas agora, que tanta coisa já perdi, posso dizer que sou feliz quase do mesmo modo. É claro que essa felicidade se ensombreia por vezes devido aos meus imensos incómodos, limitações e dores. Mas, sobretudo, quando lhe vejo a mágoa estampada nos olhos…

Sinto-me querido por todos quantos aqui vivem, pelos amigos, que me visitam e não se incomodam com o meu aspecto deplorável mas, sobretudo, por aquela que está ali na minha frente, agora absorta a teclar uns gatafunhos, mas que, na verdade, deve estar a pensar em mim. É cá um palpite que eu tenho, e também a forma como se vira para trás, me observa, me mima só com o olhar.
Conversamos imenso, à nossa maneira, e isso reconforta-me. E, na verdade, estou em crer que a ela também; fica menos angustiada após uma das nossas trocas de mimos…

Com a Eillen, meu amor de sempre, tive filhos belíssimos cobiçados por todos quantos os olhavam.
Dois deles vivem ainda comigo. Também não são já muito jovens e já vão tendo as suas mazelas. É normal. Quem, como eu, tem uma vida relativamente longa, vê os mais novos envelhecer também… É estranho… Sabem, nem me parece muito natural!
Enfim, a Eillen, essa linda ruiva nórdica, é que nos deixou cedo. Nunca mais consegui ultrapassar esse vazio embora tenha tido outras namoradas belíssimas. Mas a Lili… era a Lili. Não sei de que forma explicar o que não tem explicação. O sentir não se explica. E gato sente!!!

Aqui está ela. É já tarde. Já todos dormem. Porém está ainda aqui, a ler, e eu estou deitado ao seu lado. De vez em quando acaricia a minha cabeça, o meu dorso, as orelhas, a barriga… E embora eu sinta que o pêlo outrora sedoso e comprido, de padrão invejável (e efectivamente invejado por muitos), está áspero, isso não parece incomodá-la pois enreda de igual forma os dedos na sua aspereza, nessa massa enrodilhada em que se tornou o meu manto enquanto vai passando as páginas do livro.

Estou a ficar cansado e sonolento. Tudo o que faço é, por vezes, de tal forma penoso que me apetece desistir. Mas tenho saudades desta vida que recordo. Destes dezasseis anos de felicidade que partilhei com esta família.

Algumas vezes (e não foram poucas) servi-lhes eu de companhia e de consolo em momentos difíceis. Nunca abandonei ou ignorei ninguém quando precisou.
Hoje, são eles que cuidam de mim e me tentam minorar o que já não pode ser minorado de forma alguma.
Sinto que desistirei brevemente. Mas estou seguro de que nunca, mas nunca, estarei só.
E agora vou dormir mesmo enquanto ela, a Donagata, a minha amiga, está junto de mim e me vigia o sono.

Sou um gato feliz!

Nota: Este texto foi escrito na madrugada de 24 de Dezembro num momento em que cuidava do Zorba que já se encontrava muito mal. Deveria ter sido aqui colocado antes, mas só hoje, dadas as diversas circunstâncias adversas, tive coragem.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Adeus


É hoje, Zorba!

Soube-o hoje de manhã quando tu, ao contrário do que era habitual, não quiseste (não pudeste?) comer.

Já ontem à noite havias tombado do degrau da escada do sótão. Aquele mesmo em que passavas horas a dormir ou apenas a estar…

E hoje, hoje procuraste esquivar-te quando eu, cuidadosamente, te queria limpar aquele fio de baba que teima em pingar e que eu não sei bem o que é. Se saliva que não consegues engolir, se algo mais que a doença te trouxe.

É hoje Zorba!

Olho bem fundo esses teus belíssimos olhos verdes e vejo cansaço, sinais de desistência, pedidos de ajuda, provavelmente iguais aos que podes ver no meu olhar.

Acho que é mesmo hoje, Zorba que terminará a nossa longa amizade, a nossa cumplicidade, o carinho e a dedicação com que me mimoseaste sempre(e foste correspondido) ao longo destes últimos dezasseis anos das nossas vidas.

Fomos companheiros de brincadeiras, de descansos preguiçosos, de longas viagens, de vitórias em que me deixaste tremendamente orgulhosa , de dor também…

Obrigada!

E hoje, prometo, estarei ao teu lado naquela que será a tua última provação.


Foi hoje, Zorba,

que finalmente reencontraste o descanso há muito perdido e adormeceste confiante e sereno (será que traí a tua confiança?), confortavelmente aninhado no meu colo, como gostavas, ronronando, até não seres mais que um corpo inerte e uma saudade imensa, temperada apenas pelas recordações fabulosas que só tu serias capaz de deixar.

Adeus.

2010/01/11

(Imagem: Raillway's Zorba, o meu gato)

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Herdeira

Maicat's Black Adder

Por razões deveras dolorosa sobre as quais não tenho qualquer intenção de falar, eis que, quando dou por ela, me tornei herdeira.

Não “Herdeira”, aquele termo nobre que distingue uma casta de seres superiormente dotados que provém do meu lado materno e, no seu caso, pela via paterna.

Nunca ninguém me explicou muito bem quem eram esses tais “Herdeiros” detentores das mais elevadas capacidades, seja qual for a área de conhecimento a que nos queiramos referir, aos quais, evidentemente, eu não pertenço.

Isso é coisa reservada apenas a … ia dizer meia dúzia, mas, ainda de acordo com a minha mãe única fonte que possuo, não passa sequer da metade…. Vejamos: a minha mãe (auto-intitulada), um irmão seu, o meu avô, seu pai, na geração anterior e, a bem dizer, nesta geração mais recente, naturalmente já nem os há…. Pelo menos assim daqueles mesmo bons. Eventualmente haverá uns pouquinhos que andarão lá pelas bordinhas mas não passam daí mesmo.

Devo confessar que sempre senti um pouco de tristeza de não ser nem um bocadinho “Herdeira” e, portanto, alfobre de um montão de defeitos que herdei (mais uma vez chamo a atenção para o facto de serem palavras de semântica completamente diferente apesar da homonímia que patenteiam) pela via paterna.

Este descontentamento trouxe-me até, em dada altura da minha adolescência, graves problemas existenciais e de grande desesperança. Era difícil viver numa família pertencendo à sua estirpe menos desenvolvida.

Mas, enfim, lá sobrevivi.

E, finalmente, há poucos dias, tornei-me herdeira (das comuns, das fraquinhas, repito). Herdei um gato!

Ora nem mais. Na verdade quase nem podia ser outra coisa.

Herdei o Black, o gato que acompanhou a minha sogra nos últimos 10 anos e que não poderia permanecer lá em casa sozinho.

Nascido cá em casa, numa época em que aqui nasceram vários Bosques da Noruega, foi oferecido aos meus sogros e lá permaneceu até ao passado dia 3….

Este texto, embora motivado pela morte recente da minha sogra, mulher serena mas extraordinária na sua determinação e na sua entrega a causas apesar das limitações que, desde cedo, a restringiram na sua mobilidade e que deixou um enorme vazio na vida de muitos, não lhe é dedicado. Não sou ainda capaz de utilizar este tom jocoso ( embora suave e carinhoso) em nada que escreva a seu respeito. Apesar de, na verdade, ser também possuidora de um enorme sentido de humor e da gargalhada mais fácil e mais alegre que me foi dado ouvir. Provavelmente até acharia graça…

Contudo, este é dedicado à minha mãe.

Senhora de 82 anos, ela sim, uma verdadeira “Herdeira” no sentido familiar (e de remoque, diga-se) do termo. Aliás ela é o paradigma da “herdeirice”, o modelo, a detentora do padrão de verdade no conceito mais absoluto ( e absolutista) do termo.

Características que exerce com toda a pertinácia e de forma incansável.

E sabem que mais? Ainda bem que assim é. Muito triste ficarei quando a sentir perder essas qualidades que tanto a caracterizam e não tivermos mais razões para as profícuas discussões que por vezes temos.

Sobretudo agora que sou também, finalmente, uma herdeira. De um gato, é certo, mas uma herdeira.

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Mistérios que me apoquentam


Absorta no meu pesar, no desconforto do frio que me arrepia sem que me aperceba, saio para me ocultar enquanto ouço a litania monocórdica do terço que é rezado, a duas vozes, enquanto lhe velam o corpo.

Mantra que não entendo e para o qual não descortino sentido.

O corpo, esse aglomerado de células especializadas em algo que já não executam e que se irão degradar rapidamente por mais linda, bondosa, generosa… que tenha sido. São as leis da química, da vida, da morte…

Impressiona-me a rapidez com que despimos o nosso pendor humano e passamos a ser matéria inerte. Não inerte. Não. Engano-me. Matéria em activa decomposição.

Onde estão aqueles belíssimos olhos azuis que ainda ontem sorriam quando lhe coloquei um lenço a cobrir o cabelo que já falhava?

Onde estão esses mesmos olhos que depois riram, francamente com vontade quando, ainda com o lenço, exemplifiquei com gestos e sons absurdamente exagerados outras utilizações como a dança do ventre, a dança do véu (seja lá isso o que for).

Onde estarão?

Onde estará?

Esteja onde estiver, ou mesmo não estando, de uma coisa tenho a certeza: algo de si permanecerá sempre em mim pois nunca serei capaz de a esquecer…

2010-01-01

"Ontem não te vi em Babilónia” de António Lobo Antunes


Terminei, finalmente, a leitura do livro de António Lobo Antunes “Ontem não te vi em Babilónia”.

Foi, seguramente, um dos livros que mais tempo me levou a ler, mas também um daqueles que mais profundamente me marcou.

Quando, logo no primeiro parágrafo desta resenha, utilizo a palavra “finalmente”, não quero com isto significar um “até que enfim”.

Não, não foi nada de penoso nem tampouco me custou lê-lo.

É exactamente o oposto. É o finalmente de quem lhe custa deixar o livro mas tem de o fazer; de quem lê e relê diversas vezes muitas das partes do romance(?), as mais das vezes por puro deleite. Outras, porém, porque precisei mesmo de o fazer. Precisei de entender bem as palavras das personagens que, numa noite de insónia (é todo o tempo que dura este livro, da meia noite às cinco da manhã e com um fim previamente anunciado), se vão desnudando dizendo muito do que querem ocultar e ocultando outro tanto do que querem dizer.

O registo destas palavras é sempre pesado, sofrido, frágil, visceral, humano…

O próprio autor intervém , por vezes, obrigando-as a expor-se ou então obrigando-as a refugiarem-se no silêncio.

O silêncio, o que não se diz, o que apenas se vislumbra, o que se diz e se nega, o que nos deixa dúvidas, é, incontestavelmente, uma parte crucial desta ficção.

Esta intervenção directa do autor, esta manipulação das personagens não tem intenção de criar uma história (daí o ponto de interrogação que utilizei acima a seguir à palavra romance. Será mesmo um romance no sentido tradicional do termo?).

Isso, na minha leitura, não lhe interessa. Interessa sim a experiência da palavra, o seu manusear, o jogo de a colocar e de a retirar de seguida para, surpreendentemente, a recolocar mais além, ali mesmo, onde fazia falta (ou irá ainda escamoteá-la?).

E com estes jogos magistrais que lhe são tão aparentemente simples cria pedaços de texto literário verdadeiramente fabulosos e únicos os quais leio e releio e volto a ler sempre com o mesmo prazer.

Talvez este livro me tenha puxado para a sua leitura numa má ocasião. A minha própria vida, neste momento, encontra-se pejada de aspectos negativos que se sucedem sem me dar tempo a criar novo alento. Estou emocionalmente fragilizada. Por isso considero que, lê-lo agora, foi também um acto que revelou uma razoável dose de coragem pois muitas vezes me deixou melancólica, triste e deprimida uma vez que assimilava alguns dos sentires das personagens.

Dava por mim em profundas meditações pretendendo (como se fosse o autor) arrogar-me direitos de intervenção naquelas vidas, naquelas ausências, naqueles sofreres...

Contudo, é também verdade, que essas reflexões, essa análise de sentimentos que se escondem, que se revelam, que não existem, que se desconhece se existem, que se deixam vislumbrar, foram, por si só, uma enorme ajuda.

Há, seguramente, nas palavras de A. L. A. um efeito indelével sobre o leitor.

Atinge-o por vezes de forma provocadora, hostil até, mas sempre honesta.

Enfim, não me vou alongar mais nesta minha opinião. Nada mais tenho para dizer. Tudo o que dissesse agora seriam variações mais ou menos bem conseguidas de tudo o que já referi.

Talvez apenas uma breve alusão ao “testemunho” de uma das personagens que faz referência a um contexto político passado, porém, bem presente nas memórias de muitos, terrivelmente feio e vergonhoso; as acções da PIDE sobre os prisioneiros. Neste caso em Peniche.

Agora é a sério. Termino mesmo.

Um conselho: leiam-no e saboreiem-no.

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Palavras acertadas estas...


Há já muito tempo que permaneço agarrada à leitura do mesmo livro. Não é muito vulgar comigo. Contudo, atendendo ao livro em causa e aos acidentes de percurso, sobretudo psicológicos, que a minha vida tem levado, não é de estranhar.

Estou a ler “Ontem não te vi em Babilónia” de A. L. A..

Sei bem que talvez não seja a ocasião mais adequada para o ler pois a escrita de Lobo Antunes não se compadece com mentes menos atentas ou que partilhem as suas concepções com outros ruídos… É que todas as suas palavras estão lá por uma razão. Não podemos perder nada. Assim, tal como Lenine disse (Vladimir Ilitch Lenine – “Um passo em Frente dois passos atrás” 1904), tenho dado alguns passos à frente e muitos atrás.

Hoje de manhã, depois de acordar, peguei no livro e, quase de imediato, tropecei neste pedaço de escrita absolutamente fabuloso:

“….deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo, mas pesa, sente-se dentro o

(ia escrever o incómodo e não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduzir isto, não sei)

Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

(para já fica assim)…

Como são assertivas estas palavras e, contudo, como duvidam de si próprias… E, apesar das incertezas, que outra forma há, mais acertada, de exprimir algo inexprimível?

Como as entendo bem ! Como as sinto também!

E então li, reli e voltei a ler. E, sabem que mais? Não passei dessa página, hoje.


(Imagem daqui)

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Foi mesmo difícil!


Bom. Tinha mesmo de ser.

Está a chegar o Natal e não tinha ainda nada alusivo à quadra que é, queiramos ou não, para todos, crentes, agnósticos, ateus mesmo, uma quadra festiva.

Se o não for por outra razão, é-o, sem dúvida, pelo avivar quase generalizado do sentimento de família e, consequentemente, pela maior tendência para apertar esses laços.

Como habitualmente o Natal será passado cá em casa onde junto toda a família. Neste momento, quatro gerações muito bem representadas.

Portanto, como já disse, tinha mesmo de ser.

Atirar para longe as tristezas, as indolências, as preguiças, as hipersensibilidades de senhora de idade e… enfeitar a casa para a tornar um local acolhedor a todos quantos virão para partilhar comigo esta festa.

Tudo isto, antes do Natal, claro.

Consegui!

E é com orgulho que vos mostro a minha árvore de Natal.

Atrevam-se lá a dizer que não está linda!

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Boas Festas

Pois bem. Estamos a chegar àquele limite em que já parece mal não ter ainda abordado sequer o Natal. Quadra, na minha opinião, sobrevalorizada e que, também de acordo com a minha opinião, vai perdendo cada vez mais o seu sentido.

Contudo, dado que ninguém tem culpa deste meu cepticismo em curva manifestamente ascendente, decidi corrigir hoje essa minha imperdoável falta e, embora de forma pouco convencional, desejar a todos quantos por aqui vão passando e me vão acompanhando ao longo dos dias (e, inexplicavelmente, devo dizer que ainda são uns quantinhos) um Felicíssimo Natal gozado na companhia daqueles que vos são mais queridos e que o ano vindouro traga todas aquelas coisas boas que almejam.

Bom, essas e já agora mais umas quantinhas de surpresa. São tão boas as surpresas!

O que já não será surpresa para todos os que aqui vêm é a minha falta de habilidade. Portanto, refreiem aí as vossas expectativas.
Perceberão o que quero dizer depois de verem e ouvirem o meu postal.

Paciência. Não se pode ser bom em tudo!

É claro que deveria ser também proibido não ser bom em absolutamente nada. mas uma vez que não é...


Send your own ElfYourself eCards

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Tudo tão urgente...



São momentos, estes.

Momentos em que constato

a imensa debilidade que há em mim.

Em mim!

Que surpresa! Como a desconhecia!

Em mim!

A peremptória, a assertiva, o esteio, a insensível!?


A instabilidade alastra cá por dentro

sob esta capa de superficialidade.

Balofice? Ligeireza? Distância?

que tantas vezes dói ao tentar manter-se colada ao rosto.


Porque tudo tão presente, tão perto, tão urgente,

tão vívido que não tenho como deslembrar.

sábado, 12 de Dezembro de 2009


É já este fim-de-semana que poderemos contar com o privilégio de ver (e de preferência adquirir) alguns interessantíssimos trabalhos de bijutaria executados com muita arte e ainda mais gosto pela minha amiga Elsa Pedra.


Estes trabalhos, alguns dos quais têm a particularidade de reutilizar materiais diversos, sempre com um resultado delicadíssimo, irão estar expostos na Casa de Cultura de Paranhos (Campo Lindo) em conjunto com os de duas amigas mais no âmbito das Artes Decorativas.


Se puder (se não for para a apresentação do livro "Escolhas" comigo), então dê lá um saltinho.


Vai certamente encher o olho e, de preferência, esvaziar um pouco a carteira. Assim o esperam as artistas.


Dias: 12 e 13 de Dezembro.

Das 10.00 às 19.00

Local: Casa de Cultura de Paranhos do Campo Lindo, 7-Porto

Perturbação



Sentada neste banco frio, áspero, estranho,

feito de duro granito, que não sinto.

Também eu fria, áspera e dura,

granítica e alheia à gente que passa

Alegre?

Apressada?

Distraída?

Ponderada?

que não vejo,

procuro desatar este nó de perturbações

que fervilha descontrolado.

E não sei como…

Aguilhoa-me (a alma?) ferindo-a indelevelmente, irremediavelmente inexoravelmente…


E não sei como arrancá-lo…

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Lançamento de livros

Sob um novo olhar, surge a 2ª Edição de "Escolhas".
Um renascer.
Palavras pintadas com fotografias. Pormenores. Um novo olhar pela óptica de Inês Girão.

A Edita-Me e os autores Pedro Branco e Inês Girão, convidam para estar presente na sessão de lançamento desta renovada obra, que ocorrerá no próximo dia 12/Dez pelas 17h00, na sede do SPGL - Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (Rua Fialho de Almeida, 3 - Frente ao Corte Inglês)


A enriquecer este evento com a sua participação, contamos ainda com Pedro Lopes (ao piano), que conjuntamente com Pedro Branco (à viola), farão deste fim de tarde um momento para recordar.

Em forma de apadrinhamento por Pedro Branco, será lançado na mesma sessão o livro "Tudo tem um fim", segunda obra do jovem autor Rui Sousa.


1 ano após o lançamento do seu primeiro romance, Rui Sousa surge agora com esta segunda obra, em que o ditado "Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe", norteia a narrativa.

Com uma escrita simples, directa e muito viva, este novo romance narra as vicissitudes da vida de um homem, que acaba por, pela força dos sentimentos, vencer as adversidades que a mesma lhe impõe.

Uma obra a não perder.

(Texto do convite elaborado pela Edita.Me)


Eu, estarei lá!!!!