Pois é, pela primeira vez na vida estive no papel de moderadora de um debate com gente muito conhecedora a rodear-me do lado de cá da mesa e um público repleto de pessoas muito mais capacitadas para o efeito do que eu.
Enfim! Consequências da minha doce e extemporânea, diga-se, inconsciência que me faz “embarcar” em projectos que me parecem perfeitamente viáveis mas que, chegada a hora, me deixam absolutamente incapacitada de terror.
É então aí que eu me pergunto qual a droga que eu teria tomado para me apanharem a dizer que sim a semelhante exposição para a qual (e naquele momento já sem o seu efeito) constato que não estou minimamente preparada nem sou de todo capaz de executar com propriedade.
Foi ontem, no Clube Literário do Porto que eu me vi rodeada de dois poetas com provas mais que prestadas na matéria a moderar uma conversa cujo tema era:
“Eros e Thanatos, o amor e a morte na poesia”.
Ei!!!! Grande coisa! Dirão vocês.
Esse é um tema mais do recorrente e que percorre, tal qual uma maldição, a poesia desde Horácio com o seu tão famoso conceito de Carpe Diem ( que terá ido buscar aos epicuristas)até aos nossos dias com, apenas para exemplificar, o belíssimo poema de Alexandra Malheiro (uma das tais que me ladeava) do qual aqui deixo a primeira estrofe.
Urgente
Urgente?
Urgente
é o pão na boca do pobre,
urgente
é o céu
que a todos nos cobre,
urgente é a mão que afaga
e me acode,
urgente
é o não que
na língua me morde.
É verdade, não contesto a insistência do tema nem tampouco a existência de extensa matéria a esse respeito.
Contudo, exactamente por isso mesmo, estava em mim latente a preocupação de não estarmos ali a fazer mais do mesmo e, sobretudo da mesma forma…
(Reparem que, até para tentar relatar o acontecimento o estou a fazer do modo atabalhoado como, naturalmente, o orientei… É que não me ficava nada mal, mesmo nada mal, apresentar as pessoas da mesa!)
Pois bem, estava ladeada por, como já referi, Alexandra Malheiro, poeta com três livros publicados em papel e um quarto em formato digital e que é, nas palavras de Pedro Abrunhosa que assina o prefácio do seu último livro “Luz Vertical” “Poeta inteira, ela própria vertical, infinita e remanescente, mostra-se finalmente como uma das mais surpreendentes novas vozes que se impõem no panorama da literatura nacional”.
Do outro lado estava Rui Almeida, poeta estreante no que concerne não à publicação, pois tem textos seus em colectâneas e revistas, mas à publicação em livro seu com o “Lábio Cortado”. Ganhador, com esse mesmo livro, da primeira edição do prémio de poesia “Manuel Alegre” instituído pela C.M.de Águeda.
No posfácio que creio ser de Paulo Sucena, um dos membros do júri, podemos ler também o seguinte: ”Estamos perante uma poética que estabelece uma subtil conjugação entre a palavra e o mundo, assumida numa apresentação do poema como produto da linguagem.” E diz-nos ainda que “O título do livro…é por si só uma terrível marca do tempo presente… permite-nos falar de uma voz cortada, de um ser imperfeito de uma vida que sangra.”
E agora atentem! No meio, estava eu. Sem prefácios de Pedro Abrunhosa, sem posfácios de Paulo Sucena e sem juízo nenhum pois que me tinha proposto a semelhante função.
Bom, lá tive que assumir aquilo que me propusera e dei início à sessão não sem que antes me tivesse dado uma vontade imensa de largar a correr, num gesto impulsivo, creio até que de auto-defesa, pela Rua Nova da Alfândega.
Não o fiz, claro, mas tive que ir despindo sucessivas peças de roupa, tais eram os calores que me avassalavam.
Como o fiz, o que fiz, se disse muita coisa que não deveria ter dito, se omiti muito do que era importante dizer, se cumpri com as regras mais ou menos estabelecidas ... Enfim, se moderei ou não, convenientemente, o debate, isso não sei.
Sinceramente, aquelas quase duas horas passaram num ápice sem que eu me tivesse dado muito conta do que fazia.
O público, ilustre, devo dizê-lo, foi excelente. Colaborou e enriqueceu a sessão com o seu saber e as suas intervenções e/ou perguntas pertinentes.
E, quando dei por mim, tinha encerrado o debate.
Estava viva, ninguém me lançava olhares assassinos pelo que supunha que acabaria por sair incólume desta assumida imprudência .
Termino, pois a prosa vai já longa. Deixo-vos, contudo, bem acompanhados. Vou deixar-vos com o poema de Rui Almeida que dá título ao livro. Usufruam!
É o lábio cortado que molha o ventre.
Um ciclo de lentidão entranhada
Disperso no vício da suavidade,
Como pedra circulando nos poros,
Que arromba a pele segura pela sede,
Suposto contorno de suor ágil
A entrar na sequência da queimadura.
Entretanto seca o rumor da boca,
A ruptura alcança fertilidade
E o olhar transforma as mãos em segredos.
Ah! E quanto ao tema…. Bem, tirem as vossas conclusões. Certamente não andarão longe das que ali abordámos.













